Conceição Bocas
"A boca, é nas mulheres, a feição que menos nos esquece." Júlio Dantas
20 Março 2007
17 Janeiro 2007
Miguel Torga
Miguel Torga (S.Martinho de Anta - Sabrosa, 12 de Agosto de 1907 - Coimbra, 17 de Janeiro de 1995)
Faço poemas de papel e tinta.
Sou fogueteiro destes artifícios.
Versos...
Girândolas de sonhos e cilícios
Alinhadas no chão
Das laudas de brancura onde me iludo.
Quando a noite é demais,
E o sol de nenhum mundo dá sinais,
Ardem dentro de mim, com lágrimas e tudo.
Etiquetas: Poesia
23 Dezembro 2006
Desde que os homens deixaram de crer em Deus, não se nota que se tivessem tornado descrentes em tudo, mas sim que acreditam em tudo.
(Chesterton)
Etiquetas: Intimidades
20 Dezembro 2006
Toada do Natal
Natal. Eis que anunciando o Cristo que nasceu,
De branco, um Serafim voou do céu,
À fímbria do vestido a poeira dos sóis presa...
Vinte anos faz que o viste a par do Sete-Estrelo.
Cresceste... e nunca mais tornaste a vê-lo!
Pois basta-te querê-lo:
Ergue as mãos juntas,
Reza...
Natal. Eis que inviolada, uma Mulher foi Mãe,
E se venera agora (e para sempre, amém)
A que deu fruto e é pura — ideal pureza...
Não sabes já vencer-te e crer sem compreender?
Esquece o que os manuais dão a aprender:
Mergulha no teu ser,
Como num templo:
Reza...
Natal. Eis que ao luar, os mortos que dormiam
Dos frios leitos lôbregos se erguiam,
E vinham consoar à sua antiga mesa...
Não tens que lhes dizer desde que te hão deixado?
Não sentes os teus mortos a teu lado?
Pois fala-lhes calado,
Para que te ouçam:
Reza...
Natal. Eis que uma paz, que ao certo é doutra vida,
Abranda toda a terra empedernida,
E é cada mesa em festa uma igrejinha acesa...
Abre hoje o coração — portal que se franqueia.
São todos teus irmãos: até os da cadeia,
As que andam na má sina e os que não têm ceia...
Por todos e por ti, Ave, Maria:
Reza...
Etiquetas: Poesia
19 Dezembro 2006
Natal up-to-date
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década
Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público
Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas
Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido
Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco.
Etiquetas: Poesia
10 Dezembro 2006
05 Dezembro 2006
SENTIMENTOS MISTURADOS
"E agora? Queríamos que "eles" tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir quando o enriquecimento revelado por todos os indicadores económicos e sociais dos últimos 30 anos transformou muitos pobres na actual classe média, "baixa" como se diz na publicidade, nos grupos B e C das audiências. Nós queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas. Nós ajudámos a fazer este mundo de mais liberdade e mais democracia, que o é de facto. O 25 de Abril foi o que foi porque a geração de 60 o fez assim. Se os militares tivessem derrubado Salazar nos anos 40 ou Delgado o tivesse feito em 1958, o país seria certamente muito diferente."
(JPP)
Etiquetas: Bocas roubadas, Leituras
02 Dezembro 2006
Fragmentos de Os Espaços em Branco (6)
-Isto não deixa espaço para a imaginação - disse. A vida solitária fazia-a falar alto, dando inflexões que ela própria corrigia, como se estivesse num palco. Quem a visse não ia deixar de a achar um pouco doida. Era o maior encanto das mulheres, o de parecerem um pouco doidas. Mas isto estava a acabar. Agora pareciam-se cada vez mais com os homens, e o cativeiro dela não produzia visões e originalidades que agiam nas almas como virtudes e mistérios. Deus meu, como as mulheres mudavam! Era caso para deitar bombas.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
Etiquetas: Leituras
30 Novembro 2006
Colecção Grandes Cantores . Grandes Canções
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.
(Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día, grillos y canarios,
Martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
Y la voz tan tierna de mi bien amado. )
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario;
Con el las palabras que pienso y declaro:
Madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando.
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
Con ellos anduve ciudades y charcos,
Playas y desiertos, montañas y llanos,
Y la casa tuya, tu calle y tu patio.
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano,
Cuando miro al bueno tan lejos del malo,
Cuando miro al fondo de tus ojos claros.
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
Los dos materiales que forman mi canto,
Y el canto de ustedes que es mi mismo canto,
Y el canto de todos que es mi propio canto.
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Esta canção linda já foi cantada por tantas Senhoras...
Conheci-a através de uma versão da Elis Regina.
Aqui numa interpretação fabulosa de Mercedes Sosa.
Etiquetas: Música
28 Novembro 2006
24 Novembro 2006
23 Novembro 2006
Porto d'ouro!
Esta fotografia foi tirada na quinta-feira passada!
Estava frio... muito frio!
Estávamos frios, gelados. Doía-nos o corpo e a alma. Saímos! Tinha que ser. Tínhamos que olhar para algo belo, servirmo-nos de um porto d'ouro para aquecer.
Há quinze dias também estávamos frios, gelados. Doía-nos o corpo e a alma. Conversamos como que para expiar um mau pressentimento. Recordei como, em tempos, o que me magoara e depois sarara, me tornou mais forte. Recordei como muitos dos feupinhos, sem o saberem, em tempos menos bons, me ajudaram.
Não bebi um porto d'ouro para aquecer, mas recebi um sms que dizia "...estás bem? Está na hora de um jantarzito. Que achas?", depois um email "Hoje almocei com o F. Falámos de ti (...) A ver se nos encontramos todos para matar saudades e pôr a conversa em dia!", e mais outro, com uma fotografia linda e "Então e marcar um jantarzinho com o pessoal da faculdade?". Mais tarde, em jeito de Fangio subi um passeio de carro, não fosse o caso de perder a oportunidade de dar um beijo a alguém que era suposto não andar por ali e de quem tinha saudades.
É... não há coincidências! Esta semana não teremos tanto frio!
Etiquetas: Intimidades
22 Novembro 2006
Fragmentos de Os Espaços em Branco (6)
Não falavam disso, nunca se fala do que é profundo, rodeia-se, evita-se, adia-se, até que a morte interrompe a eminência dessa conversa inútil. Inútil como falar de amor.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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21 Novembro 2006
Fragmentos de Os Espaços em Branco (5)
Ela já não suportava os obstáculos, os concertos, as coisas da cultura usadas como expiação da indolência moral e da consciência de perda que era um mal da civilização.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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15 Novembro 2006
Fragmentos de Os Espaços em Branco (4)
A cultura religiosa era uma sombra do que fora; dera o último suspiro quando as imagens sacras passarama a fazer parte da decoração da sala. Cristos mortos em cima das cómodas D. João V e com uma almofada de cetim branco debaixo da cabeça exangue. Cisnes de prata como floreiras gigantes e pequenos anjos gordos a servir de marcadores nos jantares de cerimónia. Era o sinal da rebaldaria burguesa, era o fim da devoção que era o respeito pelo divino. Os deuses morriam outra vez ou viajavam para outro universo aspirados pelos buracos negros. Não deixara de haver grandeza nesse apocalipse.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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Fragmentos de Os Espaços em Branco (3)
Ao mesmo tempo, o que dominava era o espírito do funcionário, tímido e precavido, pronto a jurar falso e a cometer pequenas fraudes, rapinas leves, aproveitamentos, abusos de confiança, tudo o que faz d apobreza uma lei com as suas regras e as suas paradas como na partida de cartas.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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Fragmentos de Os Espaços em Branco (2)
A cultura apressada provoca uma ânsia de valorização pessoal. Aparecem as preocupações de risco, a avidez pelos bens materiais que vai além da possibilidade para os obter.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em Branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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10 Novembro 2006
07 Novembro 2006
Fragmentos de Os Espaços em Branco (1)
Tinha só onze anos e era rebelde e mal-educado. Raul optou por não lhe dar pretexto para mais conversa e sentou-se na sala diante da televisão que estava a transmitir programas populares muito enfadonhos mas que, mesmo assim, ofereciam uma certa euforia de contradição. O país tinha-se tornado eufórico na crítica e no dizer mal; isto permitia salvar o amor-próprio das pessoas. A tutela pachorrenta dos pais dera lugar à produção de filhos como investimento, e isso deixava de lado a sensibilidade de família e as suas pequenas querelas de amor e ódio. Era-se vulnerável pelo excesso de informação e talvez a generosidade sofresse com isso. Perdoava-se menos, o que dava ocasião ao desprendimento que se confundia com a liberdade. O casal era contratual e não sacramental, o que não excluía os grandes casamentos convencionais, com vestido de noiva e uma festa com qualquer coisa de ingénuo em que o pai se sentia apagado na esfera dos acontecimentos.
Agustina Bessa-Luís, in Os espaços em branco da trilogia O Princípio da Incerteza
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06 Novembro 2006
O poema
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Etiquetas: Poesia
03 Novembro 2006
01 Novembro 2006
Halloween!
- O nome Halloween é a deformação americana do termo, no inglês da Irlanda, «All Howllows’ Eve»: Vigília de Todos os Santos. Esta antiquíssima festa chegou aos Estados Unidos com os imigrantes irlandeses e lá se enraizou, para sofrer recentemente uma radical transformação. Das telas de Hollywood, a moda de Halloween chegou assim desde há alguns anos à velha Europa e a outras partes do mundo. Por detrás do Halloween está uma das mais antigas festas sagradas do Ocidente: uma festa que atravessou os séculos, com usos e costumes que se foram redefinindo no tempo, mas que conservaram o mesmo significado. As suas origens, o significado dos símbolos, são, contudo, desconhecidos para a maioria.
-Mas a festa remonta ao paganismo dos celtas. 1 de novembro, era para eles o primeiro dia do ano, a festa na qual os espíritos procuravam em quem se reencarnar. A Igreja, na Idade Média, substituiria esta tradição pela festividade de Todos os Santos, que é seguida depois pelo dia dos Fiéis Defuntos.
- Exacto. Halloween não é mais que a última versão, secularizada, de uma ortodoxa festa católica, e no meu livro procurei explicar como aconteceu a conversão de uma tradição plurissecular cristã no actual carnaval de terror. Digamos antes de tudo, que a origem deste último fenómeno, Halloween, é completamente americana. Neste país, ao que chegaram milhões de imigrantes irlandeses, com sua profunda devoção pelos santos, se tratava de um culto muito fastidioso para a cultura dominante, de carácter puritano. Deste modo, na sua actual versão secularizada, procurou descartar-se o sentido católico de Todos os Santos, mantendo no Halloween o aspecto lúgubre do mais além, com os fantasmas, os mortos que se levantam dos túmulos, as almas perdidas que atormentam aos que em vida lhes fizeram dano: um aspecto que se tenta exorcizar com as máscaras e as brincadeiras. Obviamente, o velho continente não podia permanecer muito tempo sem adoptar o novo «culto». De facto, vemos o Halloween difundir-se cada vez mais entre nós com seu cortejo de artigos de consumo mais ou menos macabros - caveiras, esqueletos, bruxas - que não se propõe como uma forma de neopaganismo, nem como um culto esotérico, mas simplesmente como uma paródia da religiosidade cristã autêntica, com fins preferentemente consumistas: vender produtos de carnaval (o chamado mercado de Halloween), máscara, caveiras, abóboras, capas, gorros e outras coisas, além de espaços publicitários nos filmes de horror emitidos pelas emissoras de televisão. Halloween se propõe comercialmente como uma festa jovem, divertida, diferente, «transgressiva»; a pessoa se disfarça de fantasma, bruxa ou zumbi para ir a alguma festa...
-Contudo, Halloween não pode ser considerado simplesmente como um fenómeno comercial ou um segundo Carnaval...
-Certamente. É importante conhecer e saber valorizar bem as suas raízes culturais, e também as implicações esotéricas que se sobrepuseram ambiguamente a esta data. O dia 31 de outubro, com efeito, converteu-se numa data importante para o esoterismo, em cujos textos encontramos estas definições: «Retorno do Grande Sabba [encontro entre as bruxas e Satanás, ndr.] quatro vezes ao ano... Halloween, é talvez a festa mais querida»; «Samhain [festa celta de 1º de novembro, ndr.] é o dia mais mágico de todo o ano, ano novo de todo o mundo esotérico». O mundo do oculto defineesta data assim: «é a festa mais importante para os seguidores de Satanás». A data de uma importante celebração de cultura celta antes e da cristã depois passou a fazer parte do calendário do ocultismo.
(Entrevista a Paolo Gulisano, autor de «La notte delle zucche»)
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